ESG
Educação para sustentabilidade no ensino de gestão
Educação para sustentabilidade no ensino de gestão

Ultrapassamos um limiar crítico de fronteiras ambientais que garantiam à humanidade e aos ecossistemas um espaço seguro para existência, em que a estabilidade e a resiliência dos sistemas terrestres estariam assegurados.
🚨 Sistema terrestre em alerta!
Em setembro de 2023, foi atualizado o estudo¹ sobre os nove limites planetários, que busca compreender como as atividades humanas afetam importantes funções ambientais globais e os sistemas de suporte à vida, como clima e biodiversidade. As conclusões apontam que ultrapassamos seis dos nove limites, e as consequências são perturbações na Terra sem precedentes e o aumento de riscos irreversíveis em grande escala.

Em adição, é impossível olharmos para os sistemas terrestres sem considerar também as fronteiras sociais, como educação e saúde e outras condições de bem-estar e vida digna. Uma dimensão impacta a outra e vice-versa.
Se a industrialização gerou avanços importantes, é preciso reconhecer a potência devastadora dos impactos socioambientais deste processo. A crise climática que vivemos hoje é efeito das emissões de carbono e outros gases de origem antropogênica de 100 anos atrás!
Mesmo com toda informação disponível, são dominantes os modelos e visões de desenvolvimento que separam meio ambiente, sociedade, economia e buscam dominar a Natureza a fim de explorá-la. Isso nos leva ao paradoxo da sustentabilidade:
“Nossas abordagens dominantes à criação de riqueza degradam tanto os sistemas ecológicos quanto as relações sociais das quais depende sua própria sobrevivência.”²
🌐 Transformações sistêmicas
Neste cenário desafiador precisamos de transformações sistêmicas. O conceito de Desenvolvimento Sustentável é um marco inicial e vem como um convite a pensarmos um desenvolvimento capaz de “suprir as necessidades da geração atual, sem comprometer a capacidade de atender as necessidades das futuras gerações.”
Tornar essa noção de desenvolvimento em ação desafia o modo vigente de viver principalmente das sociedades ocidentais.
Transformar sistemicamente a realidade envolve adotar modelos que superem a fragmentação de meio ambiente e sociedade; teoria e prática; negócios privados e questões públicas; corpo e mente; razão e sentimentos; desafios globais e problemas particulares, entre outros. Segundo Edgar Morin, essas fragmentações estão no cerne da criação dos maiores desafios da sociedade contemporânea, como a exploração desenfreada da natureza, e precisa ser questionada e superada por propostas integradoras de educação³.
Diante disso, podemos pensar uma Educação sobre Sustentabilidade e uma Educação para Sustentabilidade, que apoiam tanto o aprimoramento das nossas capacidades de “consertar”, quanto de “constituir novos paradigmas”.
📚 Educação sobre Sustentabilidade
A Educação sobre Sustentabilidade envolve esforços de inserir o debate teórico e técnico sobre questões do Desenvolvimento Sustentável no currículo de escolas e universidades, assim como nas práticas organizacionais. Este é um passo fundamental para transmissão de informações qualificadas, abertura para novas perspectivas e promoção de reflexões críticas sobre normas e modelos vigentes⁴.
📣 Educação para Sustentabilidade
A Educação para Sustentabilidade refere-se aos esforços que vão além das discussões teóricas e buscam promover mudanças nas atitudes, perspectivas e valores das pessoas por meio de experiências que sejam, em si, integradoras. Se nosso modo vigente de perceber e atuar na realidade é fragmentado, apenas saber e refletir sobre as questões do Desenvolvimento Sustentável pode reforçar ainda mais esta fragmentação. Precisamos de uma educação que nos dê condições para sentir, incorporar e de fato praticar modos de vida mais sustentáveis.
Para isso, é preciso oferecer processos formativos e metodologias que vão além da inserção de temas do Desenvolvimento Sustentável nos currículos e promovem experiências, como viagens de campo (contato direto com a natureza e outras realidades), projetos práticos (desafios reais com perspectivas multistakeholders), diálogo como princípio, troca entre saberes científicos e populares e tradicionais, processos de autoformação, atividades de arte, corpo e contemplação/meditação em complemento à atividades racionais.⁵
♻️ E um ensino de gestão para a Sustentabilidade?
As escolas de negócios mais prestigiadas do mundo estão ouvindo esse chamado e têm buscado atuar na formação de gestoras(es) e lideranças organizacionais responsáveis, éticas(os) e que vejam a Sustentabilidade como estratégia necessária para contribuir para o enfrentamento das crises socioecológicas. Não é um movimento fácil, mas desde 2009, com o lançamento do PRME – Principles for Responsible Management Education da ONU – mais de 800 escolas no mundo todo têm se engajado em trabalhar temas da sustentabilidade em disciplinas, em agendas de pesquisa, em projetos com stakeholders e internamente, como organizações que também precisam ter suas práticas de sustentabilidade. O PRME é uma iniciativa similar ao Pacto Global, porém direcionado especificamente para escolas de negócios.
💡 Algumas das iniciativas da FGV EAESP - Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas:
Formação Integrada para Sustentabilidade (FIS) A disciplina eletiva Formação Integrada para Sustentabilidade (FIS), oferecida semestralmente para a graduação em Administração de Empresas, Administração Pública, Economia, Relações Internacionais e Direito da FGV em SP, teve sua primeira turma em 2010, após a adesão da FGV EAESP ao PRME – ONU em 2009.

O FIS visa promover um processo formativo que atenda às demandas de uma educação transformadora para a sustentabilidade e que instigue mudanças no paradigma da percepção da realidade de aprendentes e docentes.
A partir de uma metodologia transdisciplinar, o percurso formativo estrutura-se em dois projetos - Projeto Referência (PR) e Projeto de Si Mesmo (PSM) -, e é organizado com base na Teoria U.
Em 13 anos, mais de 500 estudantes concluíram o FIS (nomeiam-se "fisers"); 27 projetos foram entregues publicamente, todos relacionados a ao menos um ODS e acessíveis no site do FGVces; criouse uma comunidade de fisers, com encontros periódicos e trocas constantes; a disciplina recebeu dois prêmios, sendo um internacional. A metodologia FIS tem sido utilizada fora da graduação: na linha de Sustentabilidade do Mestrado Profissional (MPGC) da FGV EAESP e em outros projetos.
🍃 Aprendizagem experiencial: imersões em campo
Disciplinas de imersão são percursos de aprendizagem, desenhados e facilitados pela equipe do Centro de Estudos em Sustentabilidade (FGVces), em que a experiência e as relações são os principais vetores para a descoberta e o conhecimento.
Por meio do contato direto com as múltiplas manifestações da realidade, as imersões têm como objetivo principal ampliar o conhecimento de Si e do todo, por meio de conversas com diferentes atores, viagens e visitas fora do ambiente escolar ou organizacional, que possibilitem reflexões profundas sobre temas da Sustentabilidade. Normalmente, duram de 5 a 10 dias.
As imersões acontecem em disciplinas da graduação e pós-graduação da FGV EAESP, presencialmente ou on-line e podem também ser customizadas para outros públicos como trainees, gestores(as) públicos ou privados, docentes, etc.
De 2017 a 2023, 625 estudantes, distribuídos em 27 turmas diferentes, vivenciaram alguma disciplina de imersão voltada à sustentabilidade.
Por Fernanda Carreira e Gabriela Alem Appugliese , do Centro de Estudos em Sustentabilidade (FGVces) da FGV EAESP - Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas.
- Katherine Richardson et al. Earth beyond six of nine planetary boundaries. Sci. Adv. 9, eadh2458 (2023). DOI:10.1126/sciadv.adh2458.
- FGVces. Centro de Estudos em Sustentabilidade. Iniciativas em Educação de Gestores para e sobre Sustentabilidade: Brasil, EUA e Inglaterra. Relatório. Instituto Arapyaú: 2019. Disponível em: https://repositorio.fgv.br/server/api/core/bitstreams/5afc8b12-e472-472b-81ea-8fd6ff3666fb/content.
- Aguiar, A. C.; Carreira, F.; Góes, V. L.; Monzoni, M. P. (2016) Formação Integrada para Sustentabilidade: impactos e caminhos para transformação. RACEF – Revista de Administração, Contabilidade e Economia da Fundace. v.7, n. 3, 161-176.
- FGVces. Centro de Estudos em Sustentabilidade. Iniciativas em Educação de Gestores para e sobre Sustentabilidade: Brasil, EUA e Inglaterra. Relatório. Instituto Arapyaú: 2019. Disponível em: https://repositorio.fgv.br/server/api/core/bitstreams/5afc8b12-e472-472b-81ea-8fd6ff3666fb/content.
- FGVces. Centro de Estudos em Sustentabilidade. Iniciativas em Educação de Gestores para e sobre Sustentabilidade: Brasil, EUA e Inglaterra. Relatório. Instituto Arapyaú: 2019. Disponível em: https://repositorio.fgv.br/server/api/core/bitstreams/5afc8b12-e472-472b-81ea-8fd6ff3666fb/content.
