Ciências Sociais
A vida digital de Basquiat: tese investiga como artista está em evidência após sua morte
Como temos uma exposição de um artista que morreu há duas décadas e lança obras novas?", questiona o pesquisador.

Como um artista que morreu há mais de duas décadas pode lançar obras inéditas? Essa aparente contradição motivou a pesquisa de doutorado de Hélio Ricardo Rainho, ex-aluno do Doutorado acadêmico em História, Política e Bens Culturais da Escola de Ciências Sociais da FGV (FGV CPDOC). Sua tese, intitulada "Jean-Michel Basquiat a Cyber Basquiat: artista máquina e narrativa na ontocartografia de uma imagem sobrevivente", investiga como o legado do artista norte-americano se perpetua e se reinventa no contemporâneo.
O ponto de partida da investigação foi uma exposição inaugurada em 2022, organizada pelas irmãs de Basquiat, que detêm seu acervo. "Considerando que o ineditismo é um fato que só pode ser dado de um artista vivo, como é que nós temos uma exposição de um artista que morreu há duas décadas e essa exposição aparece lançando obras novas?", questiona Hélio. A mostra prometia exibir pelo menos 200 obras inéditas do artista, falecido em 1988.
Para o pesquisador, esse fenômeno levanta questões fundamentais sobre a natureza da autoria e da presença artística na era digital.
"Então Jean-Michel Basquiat estaria vivo? Como é essa sobrevivência do próprio artista através da circulação da sua própria obra?", indaga.
Mapeamento ontológico e imagem sobrevivente
A pesquisa se apoia na teoria da imagem sobrevivente, conceito estudado na iconologia que Rainho desdobra como um mapeamento ontológico da existência de Basquiat. "A ideia de trazê-lo para essa pesquisa foi justamente o caráter de ineditismo que é requerido das teses, e também a potencialidade que os discursos do Jean-Michel Basquiat têm, com relação a essas discussões que estão muito em voga hoje", explica o pesquisador.
A presença de Basquiat transcende as galerias e museus. Sua influência permeia coleções de moda, catálogos comerciais e o trabalho de artistas contemporâneos. "Será que todos nós estamos diante de uma existência digital desse personagem que se multiplica em coleções de moda, inspirando catálogos, inspirando artistas que hoje estão aqui e que não têm mais a presença dele próprio?", questiona o pesquisador.
A tese procura compreender como esses agentes culturais se perpetuam através de suas obras e discursos, funcionando como narrativas vivas. Ao entender quem foi Basquiat no passado e como ele se apresenta no presente, a pesquisa também projeta uma perspectiva futura dessa análise.
Cyber Basquiat: projeção filosófica do futuro
Um dos aspectos mais inovadores da tese é a criação do conceito de "Cyber Basquiat", fundamentado na ficção filosófica de Vilém Flusser. "A gente nesse mapeamento ontológico cria um personagem chamado Cyber Basquiat. Então dentro da ficção filosófica de um autor chamado Vilém Flusser, a gente cria alguma coisa que possa idealizar quem seria o Basquiat do futuro", detalha o pesquisador.
Essa abordagem permite refletir sobre como artistas icônicos não apenas influenciam gerações futuras, mas se transformam em entidades culturais que transcendem sua existência física, tornando-se máquinas narrativas que continuam produzindo significados, debates e inspiração.
A pesquisa de Hélio contribui para debates contemporâneos sobre autoria, legitimidade artística e a permanência de legados culturais na era digital, campos de investigação cada vez mais relevantes no cenário acadêmico e no mercado de arte internacional.
Saiba mais sobre o Doutorado Acadêmico em História, Política e Bens Culturais do FGV CPDOC, aqui.

